Você ama seu parceiro, sente carinho e deseja preservar a intimidade, mas percebe que o interesse sexual já não aparece como antes.

Talvez o cansaço sempre fale mais alto. A aproximação tenha se tornado menos espontânea. Ou você até queira sentir desejo, mas parece que seu corpo não responde.

Quando isso acontece, muitas mulheres se culpam. Algumas pensam que deixaram de amar, que existe algo errado com o relacionamento ou que perderam definitivamente uma parte importante de si.

Mas o desejo sexual feminino não funciona como um botão que está simplesmente ligado ou desligado. Ele é influenciado por hormônios, sono, saúde física, emoções, medicamentos, autoestima, experiências anteriores e qualidade do relacionamento.

Desejo sexual não possui uma frequência “normal”

Não existe uma quantidade universal de relações, pensamentos ou iniciativas que determine se uma mulher possui uma vida sexual saudável.

Algumas têm desejo frequente. Outras apresentam interesse menos espontâneo e precisam de proximidade, estímulo, segurança e contexto para que o desejo apareça.

Em muitas mulheres, principalmente depois dos 40 anos, o desejo pode ser mais responsivo: ele surge depois que a intimidade começa, e não necessariamente antes. Isso não significa obrigatoriamente que exista uma doença.

A redução do desejo passa a merecer investigação quando é persistente, incomoda a mulher e provoca sofrimento, frustração ou dificuldades no relacionamento. O diagnóstico não depende apenas da frequência sexual, mas do impacto pessoal causado pela mudança.

O que é o transtorno do desejo sexual hipoativo?

O transtorno do desejo sexual hipoativo é caracterizado pela redução persistente ou recorrente do interesse sexual, acompanhada de sofrimento pessoal relevante e não explicada exclusivamente por outra doença, medicamento, conflito importante ou condição psicológica.

Podem estar presentes:

• Redução de pensamentos e fantasias sexuais;

• Pouco interesse em iniciar uma aproximação;

• Menor receptividade às iniciativas do parceiro;

• Dificuldade para manter o envolvimento durante a atividade;

• Sensação de distanciamento da própria sexualidade;

• Sofrimento com a mudança;

• Prejuízo na intimidade ou no relacionamento.

Uma mulher pode ter pouco desejo e estar confortável com isso. Nesse caso, não se deve transformar uma variação individual em doença. O problema precisa ser definido a partir da percepção e das necessidades da própria mulher.

Nem sempre é falta de hormônio

Os hormônios participam da função sexual, mas raramente explicam tudo sozinhos.

O desejo pode ser influenciado por:

• Privação de sono;

• Estresse e sobrecarga mental;

• Depressão ou ansiedade;

• Conflitos no relacionamento;

• Falta de privacidade;

• Alterações na imagem corporal;

• Dor durante a relação;

• Experiências sexuais negativas;

• Doenças crônicas;

• Cansaço persistente;

• Medicamentos;

• Problemas sexuais do parceiro;

• Perimenopausa e menopausa.

A sexualidade feminina é biopsicossocial. Isso significa que corpo, mente, contexto e relacionamento interagem continuamente.

Dor e ressecamento podem diminuir o desejo

A redução do estrogênio durante a menopausa pode provocar ressecamento, ardência, menor lubrificação e dor durante a relação.

Quando a intimidade passa a ser associada ao desconforto, é natural que o organismo desenvolva antecipação negativa e evite novas experiências. A mulher pode interpretar essa reação como falta de desejo, quando a dor é um dos principais fatores envolvidos.

Lubrificantes, hidratantes vaginais e tratamentos locais podem ser considerados de acordo com a causa. O estrogênio vaginal em baixa dose é uma das possibilidades para a síndrome geniturinária da menopausa quando corretamente indicado. Tratar o desconforto vaginal pode melhorar a experiência e a satisfação sexual.

Porém, estrogênio não deve ser apresentado como um tratamento direto e universal para o desejo.

Os medicamentos também precisam ser avaliados

Algumas medicações podem interferir na função sexual, especialmente determinados antidepressivos, medicamentos para pressão arterial, opioides e algumas terapias hormonais.

Isso não significa que o tratamento deva ser interrompido por conta própria. A conduta pode envolver ajuste de dose, substituição, mudança do horário ou associação de outra estratégia, sempre sob orientação médica.

Álcool, tabaco e outras substâncias também podem influenciar desejo, excitação e orgasmo.

Testosterona é a solução?

Não para todas as mulheres.

Existe evidência de que a testosterona transdérmica, em dose fisiológica feminina, possa beneficiar determinadas mulheres pós-menopáusicas com desejo sexual hipoativo persistente, depois que outras causas tenham sido avaliadas e tratadas.

Sociedades médicas internacionais reconhecem essa como a principal indicação respaldada por evidências e alertam que a testosterona não deve ser divulgada como hormônio obrigatório para energia, cognição, emagrecimento, músculos ou prevenção de doenças.

O tratamento exige:

• Diagnóstico clínico adequado;

• Avaliação de fatores físicos, emocionais e relacionais;

• Dosagem basal para segurança e monitoramento;

• Uso de doses compatíveis com a faixa fisiológica feminina;

• Acompanhamento de resposta e efeitos adversos;

• Suspensão quando não houver benefício clínico;

• Reavaliação periódica.

O nível de testosterona no sangue não diagnostica sozinho o transtorno do desejo sexual hipoativo. Não existe um número mágico que determine se uma mulher deveria ou não sentir desejo.

Mais testosterona não significa mais resultado

Elevar a testosterona acima dos níveis fisiológicos femininos não garante maior desejo e aumenta a possibilidade de efeitos adversos, como:

• Acne e oleosidade;

• Crescimento de pelos;

• Queda de cabelo;

• Alteração da voz;

• Aumento do clitóris;

• Mudanças desfavoráveis no perfil lipídico;

• Alterações de humor.

Alguns efeitos de virilização podem ser irreversíveis.

Os riscos mamários e cardiovasculares do uso prolongado ainda não estão completamente estabelecidos. Por isso, implantes de testosterona exigem cautela, especialmente porque não podem ser retirados facilmente quando produzem níveis excessivos ou efeitos adversos.

Hormônios bioidênticos: o que esse termo realmente significa

Hormônios bioidênticos são moléculas com estrutura química semelhante à dos hormônios produzidos pelo organismo. O estradiol e a progesterona micronizada são exemplos utilizados na prática clínica e podem oferecer benefícios quando existe indicação adequada.

O termo “bioidêntico”, entretanto, não define sozinho se um tratamento é melhor, mais seguro ou mais eficaz. Esses aspectos dependem de diferentes fatores:

• Hormônio utilizado;

• Dose;

• Via de administração;

• Qualidade da formulação;

• Objetivo terapêutico;

• Perfil clínico da paciente;

• Monitoramento durante o tratamento.

Formulações manipuladas podem ser úteis quando é necessário individualizar uma apresentação ou quando não existe uma alternativa comercial apropriada. Para isso, é importante utilizar farmácias confiáveis, prescrição criteriosa e acompanhamento periódico.

Implantes e pellets podem oferecer praticidade e liberação prolongada, mas exigem seleção cuidadosa porque permitem menos flexibilidade para ajustes ou interrupção rápida. Em mulheres, sociedades médicas geralmente recomendam priorizar formulações ajustáveis e reversíveis, sobretudo no início do tratamento.

Portanto, hormônios bioidênticos não devem ser demonizados nem apresentados como solução superior para todas as mulheres. O objetivo é utilizar a opção mais adequada para cada paciente, buscando melhora clínica, níveis fisiológicos e acompanhamento seguro — e não simplesmente alcançar valores hormonais elevados.

O tratamento vai muito além da testosterona

Dependendo da causa, o cuidado pode envolver:

• Tratamento da dor ou do ressecamento vaginal;

• Revisão de medicamentos;

• Controle de fogachos e melhora do sono;

• Tratamento de ansiedade ou depressão;

• Terapia sexual;

• Psicoterapia;

• Terapia de casal;

• Reconstrução da intimidade sem cobrança;

• Atividade física;

• Cuidado com a imagem corporal;

• Orientação sobre estímulos e desejo responsivo;

• Tratamentos hormonais ou não hormonais quando indicados.

Em determinados países existem medicamentos não hormonais específicos para algumas mulheres com baixo desejo, mas disponibilidade, indicação e segurança precisam ser verificadas individualmente.

Pressão e cobrança geralmente pioram o problema

Quando cada demonstração de carinho parece obrigatoriamente conduzir à relação sexual, a mulher pode começar a evitar até mesmo o contato afetivo.

Transformar intimidade em obrigação aumenta ansiedade, culpa e afastamento. Reconstruir segurança, comunicação e proximidade pode ser tão importante quanto qualquer medicamento.

O tratamento não deve buscar apenas aumentar a frequência sexual. Deve ajudar a mulher a recuperar conforto, autonomia, prazer e conexão com a própria sexualidade.

A consulta precisa oferecer espaço para falar

Muitas mulheres não mencionam a dificuldade por vergonha ou porque acreditam que o profissional não irá perguntar.

Uma avaliação cuidadosa precisa compreender:

• Quando a mudança começou;

• Se existe sofrimento pessoal;

• Como era o desejo anteriormente;

• Se há dor, ressecamento ou dificuldade de orgasmo;

• Como estão sono, humor e energia;

• Quais medicamentos são utilizados;

• Como está o relacionamento;

• Se houve experiências traumáticas;

• Quais são as expectativas da mulher.

O Dr. Igor Alves realiza atendimento médico voltado à saúde hormonal, metabólica e à composição corporal, com escuta individualizada e atenção às mudanças que podem afetar o bem-estar e a qualidade de vida.

Se a redução do desejo está incomodando você, uma avaliação médica pode ajudar a identificar os fatores envolvidos e construir um cuidado respeitoso, seguro e compatível com sua realidade.

Fontes consultadas: The Menopause Society, American College of Obstetricians and Gynecologists, British Menopause Society e International Society for the Study of Women’s Sexual Health.