A redução da testosterona pode repercutir muito além da vida sexual. Alguns homens percebem perda de disposição, redução da força, dificuldade para preservar massa muscular, aumento de gordura abdominal, menor interesse sexual e sensação de que já não apresentam o mesmo rendimento físico e mental.

Quando existe deficiência hormonal comprovada, a reposição individualizada pode contribuir para uma transformação importante na saúde, no bem-estar e na qualidade de vida.

Os melhores resultados não acontecem apenas pela aplicação de um hormônio. Eles surgem quando a correção da deficiência é integrada a mudanças consistentes no estilo de vida:

• Alimentação adequada;

• Treinamento de força;

• Atividade cardiovascular;

• Sono de qualidade;

• Redução do excesso de peso;

• Controle da pressão, glicemia e colesterol;

• Tratamento da apneia do sono;

• Redução do consumo excessivo de álcool;

• Acompanhamento médico periódico.

A reposição não deve ser cercada por preconceito nem apresentada como solução milagrosa. Ela é um recurso terapêutico que pode oferecer benefícios expressivos quando existe indicação, escolha adequada da formulação e monitoramento criterioso.

Qual é a função da testosterona no homem?

A testosterona participa de diferentes funções, como:

• Desejo e função sexual;

• Produção de espermatozoides;

• Manutenção da massa muscular;

• Saúde óssea;

• Produção de glóbulos vermelhos;

• Distribuição de gordura corporal;

• Manutenção das características sexuais masculinas;

• Aspectos de disposição e bem-estar.

Isso não significa que qualquer alteração nessas áreas seja provocada exclusivamente pela testosterona. Cansaço, perda de força e redução da libido também podem estar relacionados a privação de sono, obesidade, depressão, ansiedade, diabetes, hipotireoidismo, sedentarismo, alimentação inadequada, medicamentos e estresse crônico.

Quais benefícios podem ser percebidos?

Nos homens com sintomas e deficiência comprovada, o tratamento pode contribuir para:

• Recuperação do desejo sexual;

• Melhora da atividade e da satisfação sexual;

• Melhora de determinadas formas de disfunção erétil;

• Aumento ou preservação da massa muscular;

• Redução da gordura corporal em alguns pacientes;

• Maior capacidade de resposta ao treinamento;

• Melhora da densidade mineral óssea;

• Correção de determinados casos de anemia;

• Recuperação da disposição e do bem-estar;

• Maior motivação para cuidar da própria saúde.

Esses benefícios não aparecem da mesma forma ou no mesmo tempo para todos. Libido e disposição podem melhorar antes, enquanto alterações de composição corporal, massa muscular e saúde óssea exigem acompanhamento mais prolongado.

A testosterona não substitui exercício, alimentação ou sono. Ela pode criar condições mais favoráveis para que o paciente responda melhor a essas mudanças quando havia uma deficiência hormonal limitando sua evolução.

Uma transformação construída em conjunto

O tratamento não deve ser medido apenas pelo número da testosterona no exame.

O verdadeiro resultado aparece quando o paciente:

• Recupera energia para realizar suas atividades;

• Volta a se exercitar com regularidade;

• Melhora a composição corporal;

• Preserva massa muscular durante o emagrecimento;

• Retoma a intimidade e a autoconfiança;

• Organiza o sono;

• Controla os fatores de risco metabólico e cardiovascular;

• Constrói hábitos que podem ser mantidos no longo prazo.

A reposição hormonal pode ser uma parte importante desse processo, mas a transformação é construída pela associação entre tratamento médico, participação ativa do paciente e mudanças sustentáveis.

Um exame baixo confirma o diagnóstico?

Não isoladamente.

A testosterona varia durante o dia e pode ser afetada por sono, alimentação, doenças agudas, medicamentos e horário da coleta.

Diretrizes internacionais recomendam que o diagnóstico seja estabelecido quando existem sintomas ou sinais compatíveis e níveis de testosterona consistentemente reduzidos, geralmente confirmados em pelo menos duas coletas matinais realizadas em condições adequadas.

Em determinadas situações, a testosterona total pode não representar adequadamente a quantidade disponível para os tecidos. Alterações da proteína transportadora SHBG podem tornar necessária a avaliação da testosterona livre calculada ou de outros parâmetros.

O resultado precisa ser interpretado dentro do contexto clínico, e não isoladamente.

Por que a testosterona pode diminuir?

A produção pode ser afetada por alterações nos testículos, na hipófise ou no hipotálamo. Também existem causas funcionais e potencialmente reversíveis.

Entre os fatores que precisam ser avaliados estão:

• Obesidade;

• Apneia do sono;

• Diabetes e resistência à insulina;

• Doenças crônicas;

• Uso de opioides;

• Uso prolongado de corticoides;

• Consumo excessivo de álcool;

• Restrição calórica intensa;

• Excesso de treinamento sem recuperação;

• Alterações da hipófise;

• Doenças ou lesões testiculares;

• Tratamentos oncológicos;

• Envelhecimento.

Em alguns homens, perda de peso, tratamento da apneia, melhora do sono e controle metabólico podem favorecer a recuperação hormonal. Identificar a causa ajuda a decidir se a reposição é necessária e quais outras intervenções devem acompanhar o tratamento.

Avaliação médica: mais do que solicitar testosterona

Uma abordagem criteriosa começa por compreender sintomas, histórico de saúde, medicamentos, rotina, sono, composição corporal e objetivos.

Dependendo do caso, a investigação pode incluir:

• Testosterona total e livre calculada;

• SHBG;

• LH e FSH;

• Prolactina;

• Função tireoidiana;

• Hemograma e hematócrito;

• Glicemia e hemoglobina glicada;

• Perfil lipídico;

• Funções hepática e renal;

• PSA, conforme idade e risco;

• Fertilidade e análise seminal, quando pertinente;

• Vitaminas e outros marcadores, quando houver indicação.

Esses exames ajudam não apenas a confirmar a deficiência, mas também a identificar sua origem e condições que podem interferir na resposta ao tratamento.

A importância da avaliação cardiovascular

A saúde hormonal e a cardiovascular estão interligadas. Obesidade abdominal, hipertensão, diabetes, colesterol elevado, sedentarismo e apneia do sono são frequentes em homens que procuram reposição.

Por isso, a avaliação pode incluir:

• Medição e acompanhamento da pressão arterial;

• Investigação do histórico pessoal e familiar;

• Avaliação da capacidade física e dos sintomas cardiovasculares;

• Eletrocardiograma;

• Teste de esforço;

• Ecocardiograma;

• Exames vasculares;

• Avaliação de placas e calcificação coronariana;

• Outros exames de imagem, quando clinicamente indicados.

Nem todo paciente precisa realizar todos esses exames. A investigação é definida conforme idade, sintomas, fatores de risco, histórico familiar e intensidade do exercício pretendido.

O objetivo não é criar medo ou uma lista excessiva de exigências. É conhecer o paciente de maneira completa, aumentar a segurança e aproveitar a consulta como oportunidade para prevenir doenças cardiovasculares que poderiam permanecer silenciosas.

Testosterona e saúde cardiovascular

Estudos recentes trouxeram maior tranquilidade sobre a segurança cardiovascular da reposição realizada em homens com hipogonadismo, mantendo níveis fisiológicos e acompanhamento adequado.

Em 2025, a FDA retirou o alerta máximo relacionado ao aumento de grandes eventos cardiovasculares dos produtos de testosterona após os resultados do estudo TRAVERSE. Ao mesmo tempo, passou a reforçar o acompanhamento da pressão arterial, porque alguns produtos podem promover elevação pressórica.

Isso mostra por que a reposição deve caminhar junto com o controle de pressão, diabetes, colesterol, tabagismo, obesidade e sedentarismo.

E a fertilidade?

Este é um ponto fundamental antes de iniciar o tratamento.

A testosterona administrada externamente reduz a produção de LH e FSH pela hipófise. Como consequência, os testículos podem diminuir a produção interna de testosterona e de espermatozoides.

Isso pode provocar:

• Redução importante da contagem espermática;

• Diminuição do volume testicular;

• Infertilidade temporária;

• Em alguns casos, ausência de espermatozoides no sêmen.

Homens que desejam ter filhos no curto prazo precisam conversar sobre esse objetivo antes da reposição. Existem outras estratégias para situações específicas, mas elas dependem da causa e de avaliação individualizada.

Testosterona e próstata

Não existe evidência de que a reposição, mantendo níveis fisiológicos em homens adequadamente selecionados, provoque automaticamente câncer de próstata.

Entretanto, a testosterona influencia o tecido prostático. Por isso, idade, sintomas urinários, histórico familiar, exame clínico e PSA precisam ser considerados conforme o perfil do paciente.

Homens com câncer de próstata ativo geralmente não devem iniciar o tratamento. Pacientes previamente tratados representam uma situação específica, que exige decisão compartilhada e acompanhamento conjunto.

A mensagem correta não é “testosterona causa câncer”, nem “testosterona nunca interfere na próstata”. O caminho responsável é avaliação e monitoramento.

Por que o hematócrito precisa ser acompanhado?

A testosterona estimula a produção de glóbulos vermelhos. Esse efeito pode contribuir para a correção de determinados casos de anemia, mas, quando excessivo, pode elevar o hematócrito.

O hemograma deve ser avaliado antes e durante o acompanhamento. A elevação importante exige ajuste da dose, mudança da apresentação, interrupção temporária ou outra conduta clínica.

O acompanhamento permite identificar a alteração precocemente, antes que ela se transforme em um problema.

Gel, injeção ou implante?

Existem diferentes apresentações, cada uma com vantagens e limitações.

Gel transdérmico: permite ajustes graduais e níveis relativamente estáveis, mas exige aplicação frequente e cuidado para evitar a transferência do produto para outras pessoas.

Formulações injetáveis: podem ser práticas e eficazes, mas dose e intervalo influenciam picos e oscilações hormonais.

Implantes: oferecem liberação prolongada e podem proporcionar comodidade, mas permitem menos flexibilidade para ajustes ou interrupção rápida.

A melhor apresentação depende do diagnóstico, objetivo, rotina, preferência, custo, resposta e perfil de segurança do paciente.

Testosterona bioidêntica: o termo precisa ser contextualizado

A testosterona utilizada em diferentes tratamentos pode apresentar estrutura semelhante à produzida pelo organismo. Isso não torna automaticamente uma formulação melhor ou pior.

A segurança depende de:

• Procedência e qualidade;

• Dose;

• Via de administração;

• Intervalo entre as aplicações;

• Capacidade de ajuste;

• Indicação correta;

• Monitoramento clínico e laboratorial.

Formulações manipuladas podem atender necessidades específicas quando prescritas e produzidas com critérios de qualidade. O importante é evitar a ideia de que “bioidêntico” significa ausência de riscos ou que níveis mais elevados produzem benefícios maiores.

Acompanhamento permite personalizar o tratamento

Depois do início, o acompanhamento ajuda a avaliar:

• Melhora real dos sintomas;

• Evolução da composição corporal;

• Resposta sexual;

• Pressão arterial;

• Testosterona e demais parâmetros hormonais;

• Hemograma e hematócrito;

• PSA e saúde prostática;

• Perfil metabólico;

• Fertilidade;

• Efeitos adversos;

• Necessidade de ajustar dose, intervalo ou apresentação.

Não se busca simplesmente atingir um valor elevado. O objetivo é encontrar a dose que proporcione benefício clínico, níveis fisiológicos e boa tolerabilidade.

Reposição não é sinônimo de anabolização

A reposição busca corrigir uma deficiência comprovada e devolver os níveis à faixa fisiológica.

A utilização de doses elevadas com objetivo exclusivamente estético ou de performance possui outra finalidade e pode aumentar a possibilidade de infertilidade, atrofia testicular, elevação do hematócrito, acne, queda de cabelo, alterações de humor, ginecomastia e aumento da pressão arterial.

O objetivo médico não é produzir o maior número possível no exame. É melhorar sintomas e saúde com a exposição adequada para cada paciente.

O tratamento começa antes da primeira aplicação

Uma avaliação responsável precisa responder:

• Os sintomas são realmente compatíveis?

• A testosterona está consistentemente baixa?

• A coleta foi realizada corretamente?

• Qual é a causa da deficiência?

• Existem condições reversíveis?

• O paciente deseja ter filhos?

• Quais riscos precisam ser monitorados?

• Qual apresentação permite melhor controle?

• Quais benefícios são realisticamente esperados?

Quando existe deficiência comprovada, uma estratégia bem conduzida pode ajudar o homem a recuperar disposição, sexualidade, força, composição corporal e qualidade de vida. Esses resultados se tornam mais consistentes quando são acompanhados de sono adequado, atividade física, alimentação, controle metabólico e avaliação cardiovascular.

O Dr. Igor Alves realiza atendimento médico voltado à saúde hormonal, metabólica e à composição corporal, com avaliação criteriosa dos sintomas, exames laboratoriais e cardiovasculares e planejamento individualizado.

Se você percebeu mudanças na disposição, libido, força ou composição corporal, uma avaliação médica pode esclarecer se existe deficiência hormonal e quais estratégias podem contribuir para sua recuperação com segurança e acompanhamento próximo.

Fontes consultadas: Endocrine Society, European Association of Urology e Food and Drug Administration.